Festival END 5ª Edição 

Um
monstro que
escreve
com várias
mãos


Beatriz Brás

Estou? Estou sim, Mickael. Finalmente, é verdade! Não tem problema. Sim, tudo bem, e contigo? Ah... Pois, dizem que a segunda dose é sempre mais forte que a primeira. Que chatice. Eu vou tomar a primeira agora em Setembro. Tenho 28... Estou? Ah, deixei de te ouvir. Estou, estou a ouvir agora. Diz, diz. Sim, posso falar. À vontade, diz. Sim... Festival END, sim. – Festival END? Onde é que isso foi?, penso. – Há uns aninhos, é verdade. – Ah, foi em Coimbra, pois foi, penso. - Sim, eu fui como aluna, na altura estava no... – Fui com o Pedro e o David, no mestrado, pois foi, penso. – No mestrado, sim, estava no primeiro ano de mestrado. – O que é que ele quererá? – Na Escola Superior de Teatro e Cinema, sim. - Vai convidar-me para ir de novo? – Em Artes performativas. Fui com o professor David Antunes e um colega meu, o Pedro Baptista – Vai programar-me? – Sim, pois foi, em 2016, isso mesmo. – Isso é que era... – Claro, fizeram bem. É mais seguro assim. Isto ainda não está para brincadeiras, não. – Diz que este ano não vai haver festival... então é o quê? - Um Festival-Livro? Ah, que fixe! – Ai, merda, quer o meu testemunho do festival e eu não me lembro de nada... – Na altura fui como Espectador Emancipado, sim. – O que é que eu vi lá? – Uau, 1000 páginas é obra! Sim senhor. - Ah vi aquele espetáculo! O... ai porra, como é que se chamava? - Posso, posso falar disso também, claro. Eu costumo escrever para teatro, sim, mas é sobretudo com a minha companhia, por isso posso dar um testemunho de um trabalho colectivo de escrita, se te parecer bem. - Ah, vi o espetáculo era com a Vera Mantero e o Pedro Penim... e... quem é que era o outro? – Ótimo. E é para entregar até quando? – Era aquele da Mala Voadora... - Sim, em setembro tenho ensaios mas acho que consigo conciliar, também podemos sempre ir ajustando... – Era o Jorge Andrade! – Sem limite de caracteres? Ah, que bom, finalmente alguma coisa sem limite de caracteres. – Ai, querem que seja criativa... – Excelente. E a letra é Times New Roman, tamanho 12, ou não há nenhuma restrição? – Esse espetáculo era incrível... 6 horas só de perguntas e respostas. Era lindo. Foi dos mais lindos que vi. Não me lembro é do nome...

 – Ah, dão apoio gráfico? – O título era em inglês... Acho que era uma criação dos Forced Entertainment... Seria? – Falo com a equipa de design? Ótimo. – Equipa de design?... – Ok. Sim, tens o meu email, podes passar-lhes, à vontade. – Havia muitos espectáculos, lá, e workshops... - QR Codes? Sei, sim. Nunca usei mas sei o que é. – Ah, eu tive num workshop com o... o Nuno M. Cardoso! De escrita. – Eu já escrevo com o novo acordo, fartei-me das correções do Word. – Como é que era?... Era qualquer coisa com o telemóvel... – Ok, eu vejo isso com eles, então. E quando é que são essas reuniões técnicas? – Ah, já sei, era para escrevermos a partir da última SMS que recebemos no nosso telemóvel, pois era, pois era. – Claro, daí os prazos apertados, faz sentido. E vai ser muita gente a escrever, não? - Será que isto é remunerado? – Ah, boa. Isso é que se quer. Gente a trabalhar. - Pergunto-lhe? Ou espero que me diga? – Pois, assim não deixa de haver festival, que dizer, existe mas em forma de livro. Genial. - Vou esperar. - É um livro vivo, exatamente. E fica sempre o registo. - Ele há-de dizer mais para o fim, é normal estas coisas virem mais para o fim. - Olha, desde já, os meus parabéns pela iniciativa. O que interessa é que deram a volta à coisa. – Nem sei se estas coisas se pagam. Nunca fiz... – Parar é morrer, tal e qual. Claro, e estamos juntos nisto. Estamos todos no mesmo barco. – Se não pagarem, aceito? – Pois, isto está estranho para todos. Nós também tivemos alguns espetáculos cancelados e adiados durante os últimos anos. Sim, na minha companhia. Tu conheces, não é? Os auéééu, sim. – “Ah, e também vi o espetáculo com o Tonan Quito, o título era não sei quê das linhas... - Auéééu. Diz-se como quiseres. Um “a”, um “u”, três “e”’s, com acento, sim, e um “u”.  – Esse era do Tiago Rodrigues, pois era. Acho que foi o primeiro que eu vi dele... ou não?” – Não, auéééu. Auéééu. É como se fosse um grito ou... – Por que raio é que fomos pôr este nome? - Pois nem eu sei o significado. Eu costumo dizer que é dadaísta. – Pois, pois... Engraçadinha...  - Sim. Escrevemos juntos. Quer dizer, não necessariamente todos juntos à volta de uma mesa.   Depende, vai variando.

O nosso processo de escrita é um bocadinho selvagem, não há bem uma fórmula. Nós? Nós fundámos a companhia em 2014. Quando saímos da Escola Superior de Teatro e Cinema, depois do nosso exercício final. Agora somos oito. Na altura éramos nove. – “Vão acabar por ser três”, era o que nos diziam. – Já não mau, é verdade. Não, o que acontece normalmente é partirmos de uma temática, de uma pergunta, de uma frase ou de um dispositivo cénico, enfim, o que seja que nos atraia, e a partir daí começamos a pesquisar filmes, livros, palestras, músicas, conversas que alimentem esse conceito... Sim, costumamos convidar pessoas de várias áreas para virem conversar connosco. Aliás, criámos o Ciclo de Inúteis Conversas a propósito disso, exatamente. Tu chegaste a ir? Com o Francisco Parreira, o David Antunes e uma data de convidados. Foste? Era ali na Ferin... Pois, pois é, estás longe. Mas pronto, costumamos usar todo o material que nos inspire e nos permita alargar as perspectivas sobre a temática escolhida e a partir desse grande bolo, e de algumas improvisações no espaço de ensaio, seguimos para a criação do texto escrito. Da peça, pois. Sim, escrevemos os nossos próprios textos, sim, mas também apostamos num trabalho de edição, porque nos apropriamos de material que nos é exterior: guiões de filmes, essencialmente, textos filosóficos, também, excertos de algumas peças, enfim... Existe uma espécie de ruminação conjunta de todas essas referências, linguagens e imaginários. – Será que ele se está a perceber que eu estou a usar a nossa conversa para escrever o texto que ele me está a pedir? – E que vive desse espírito colectivo e heterógeno, lá está. De vários corpos diferentes que criam um objecto em comum. Ninguém detém o controlo sobre o monstro. É indomável, é isso. Eu costumo dizer que funcionamos como num bando ou num cardume, em que não se percebe bem quem é que está a seguir ou a ser seguido. Porque essas posições estão em constante mutação e são difusas. É um objeto com vida própria, sabes? E como não temos presente a figura do encenador, como experimentamos uma lógica de poder horizontal, em que ninguém detém a palavra final, acaba por ser um trabalho demorado, difícil, que exige cedência, que vive da capacidade de nos fazermos ouvir

mas também a de sermos influenciados e conduzidos para territórios que não habitaríamos à partida, e cujo resultado ninguém sabe qual vai ser. – Não posso abusar do tom formal. Apetecia-me, mas ele vai perceber que estou mudar de registo e a aproveitar-me da nossa conversa para escrever este texto e pode não gostar. Pode sentir-se usado. É legítimo. Eu também me sentiria. Não, não posso ser tão explícita. – Ya, ya. Fazemos isso. Estou? Estás a ouvir-me? Sim, eu estou a ouvir-te bem agora. Deves estar com pouca rede. Estava dizer-te que essa surpresa pode ser maravilhosa ou pode ser um desastre, como deves calcular. Pois... Mas é esse o risco que queremos correr. Às tantas não sabemos muito bem de onde veio determinado texto ou determinada ideia, às vezes não sei como é que fomos ali parar. Alguém escreve uma coisa, eu pego no texto e acrescento outro, alguém pega nisso, leva para cena, põe uma música, e aquilo transforma-se, entendes? – Mas se eu continuar neste discurso coloquial de café isto não vai parecer um texto digno de ser publicado num livro... – E usamos também os nossos mecanismos de criação enquanto texto do espetáculo, ou seja, transformamos em jogo cénico e em ficção aquilo que é a nossa realidade, digamos assim. Como se os nossos espetáculos e a nossa escrita espelhassem as dinâmicas e as relações que estão presentes nos nossos processos de criação, como se transparecessem as várias cabeças que o pensam e as várias mãos que o escrevem. Não conseguimos dissociar uma coisa da outra, o processo da dramaturgia e, por sua vez, do resultado final. E nesse sentido talvez sejam espetáculos experimentais. – São?... – No sentido em que se inventam de cada vez que se constroem. E no sentido em que vivem do seu processo, sendo um caminho sem caminho.  Mas não é uma coisa que procuremos, não temos nada contra pegar num texto dramático que já esteja escrito por alguém e pô-lo em cena, que isso de simples não tem nada, pelo contrário, e ainda bem que existe quem o faça, simplesmente connosco tem acontecido desta maneira, tem-nos dado mais gozo fazer desta forma. Pelo menos até agora.

Tenho de decidir: ou eu assumo que isto é um texto e sofro as devidas consequências ou então o leitor vai enfadar-se deste tom pós-dramático de conversa tu-cá-tu-lá. Isto assim não é carne nem é peixe. - Eu costumo dizer que os nossos espetáculos têm tudo para falhar. Não são espetáculos que sejam eficazes. Percebes? Não é um mecanismo eficaz, este de ter várias cabeças a opinar sobre tudo, a toda a hora. Muitas vezes pensamos em desistir, não só por razões externas como também internas à companhia. Mas, ao mesmo tempo, o facto de estarmos juntos permite-nos chegar a um outro corpo, que não é meu nem de ninguém. E esse corpo permite a surpresa, com tudo o que isso implica. Nem sempre me identifico totalmente com os nossos espetáculos, porque não sou eu que os domino. É compreensível, não é? Às vezes passo a gostar de uma cena a que me opunha, ou que não entendia inicialmente, só passado muito tempo. Esse corpo comum cria-me resistência, está sempre em diálogo comigo, nas suas diferentes fases, e vai-se revelando com o tempo, como uma fotografia. Penso que os nossos espetáculos, os nossos processos de composição, são, antes de tudo, uma experiência social. E, por consequência, são políticos; são, em si, um gesto político. Não achas? Eu digo isto porque se permitem a lidar com o outro sem a condição de que ele seja igual ao seu próximo. Existe a procura pela preservação da singularidade de cada um embora não deixemos, por isso, de alimentar a contaminação entre nós, o questionamento, o diálogo e a discórdia. Como a democracia, na sua génese, o procura. É político porque nos forçamos a lidar com a diferença que existe entre nós, porque não temos como objectivo o consenso e a homogeneização do grupo, na convicção que é desse confronto que existe precisamente a nossa riqueza, não só como colectivo de teatro, mas, aplicando a lógica a uma escala macro, como sociedade: diferença ideológica, emocional, estética, física, conceptual, o que seja. Para além disso, é político porque aprendemos a confiar e a largar o medo de errar. É uma viagem inútil, que fracassa, que é vadia, que vagueia sem um fim em concreto, que contraria a fome pelo utilitarismo, pelo resultado, pelo efeito, pelo sucesso. Podemos dizer que existe uma lógica de tempo presente, de paixão desinteressada, de festa, de caminhada cujo fim está contido em si mesma, e não tanto uma lógica de futuro, de produção, de lucro. – Já estou a abusar nos caracteres. Ele já percebeu de certeza. Estou em monólogo há muito tempo... Como é que eu disfarço isto? Ainda por cima queria pôr aqui um QR Code do site da companhia, já agora aproveito que há apoio gráfico e deixava o nosso rasto digital aos leitores. Deixa ver se dá. – Olha, Mickael, desculpa, estou a dar-te uma grande seca. Não? Eu depois escrevo um texto sobre isto, uma coisinha mais bem posta, e ficas a perceber o que quero dizer. Achas bem? Boa. Posso até enviar-te o site da minha companhia, se tiveres curiosidade em saber mais detalhes, projetos passados e futuros...

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- Boa, acho que ele não topou. – Sim, eu depois mando-te, por email. Sim, e tu envias-me por escrito as informações detalhadas que me disseste ao telefone, pode ser? Para não me esquecer de nada. Eu sou uma distraída. – Já que posso usar e abusar dos QR Codes vou aproveitar para pôr uma musiquinha para dar um ambiente final, pode saber bem ao leitor. Baixinho, a ver se ele não ouve... -

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- Estou? Sim, estou a ouvir-te, é que eu estou aqui numa residência no Alentejo e eles estão aqui a pôr música aos altos berros, desculpa. Mas eu estou a ouvir-te. Espera aí. Olhem lá, podem baixar a música, sff? Estou? Desculpa. Ouves-me agora? Boa. Sim. Hum, hum. Esse é o valor bruto ou com descontos? – Eu disse-te que ficava para o fim. – Ok, parece-me bem. - Não faço ideia se é bem pago. Nunca escrevi nada assim. - Um valor simbólico, pois, claro. – Quando é que deixam de pagar valores simbólicos? – Posso passar recibo, sim. Não tenho empresa. - Devia haver tabelas. Se calhar há. Ao menos pagam, não é assim tão pouco. E é currículo. Deixa pegada. Vai ser fixe. Aceita, claro. – Aceito, claro. Obrigada por te teres lembrado de mim! Alguma coisa liga-me. Ou escreve-me. Escreve-me, já que te escrevi.